QUANDO AS MARIAS FALAM: MEMÓRIAS E HISTÓRIAS ATRAVÉS DA ROUPA

RESENHA DE Matheus Luiz Couto Alves

Artista vestimentar, bacharel em Comunicação Social pela UFMG e especialista em Arte Contemporânea pela Escola Guignard UEMG. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9397810385439519. Site: www.mthcouto.com

Revista Arte ConTexto

REFLEXÃO EM ARTE
ISSN 2318-5538
V.6, Nº16, DEZ., ANO 2019
ARTE E EDUCAÇÃO

Quando as Marias Falam: Memórias e Histórias Através da Roupa – Projeto de arte- educação com moradoras do abrigo Maria Maria, da cidade de Belo Horizonte, realizado em 2018.

 

Nascemos nus. Em seguida recebemos nossa segunda pele: a roupa. Durante muito tempo ela é escolhida por outros, só depois chega a autonomia da escolha para combinar as próprias peças, uma forma de afirmação de nossos gostos, de nossas identidades. Mas e as pessoas que não possuem o privilégio da escolha? Vamos apresentar algumas: mulheres que durante algum tempo tiveram as ruas de Belo Horizonte como moradia e hoje vivem no abrigo Maria Maria, dedicado a acolher mulheres, situado no Bairro da Lagoinha, que há mais de 18 anos cuida e promove o sentido de comunidade. São Marias das Dores, das Graças, do Rosário, de Lourdes e tantas outras que se vestem de peles que surgem ao acaso, que não foram desenhadas para elas e que, na maioria das vezes, não condizem com suas medidas e anatomias.

A concepção do projeto de arte-educação “Quando As Marias Falam: Memórias e Histórias Através da Roupa”, desenvolvido em conjunto com as moradoras do Maria Maria, uniu arte, moda e histórias de vida, contemplando o tempo de produção de cada mulher, suas habilidades, suas limitações e a trajetória pessoal que cada uma carrega. A partir de peças jeans, oriundas de doações, um laboratório de criação foi desenvolvido numa sala do abrigo. A proposta foi a de transformar as roupas originais em outras peças de vestuário, com as quais as mulheres pudessem expressar elementos de suas identidades. A experiência do desmanche das peças e o posterior nascimento das novas criações proporcionou um diálogo com os corpos, perfis e gostos das Marias. O processo de criação e produção proporcionou a força de um objeto relacional de cada mulher, uma pele nova, emergindo a possibilidade de depositar suas essências, seus sentimentos, anseios e sonhos.

“Na minha roupa quero bordar ‘Aqui é Espanha’”, disse a moradora Renata, na oficina de bordado. A frase, à primeira vista sem sentido, ganha significação à medida em que se entende o contexto: “É porque aqui se panha tudo. Deixa uma coisa aí em cima da mesa dando mole pra você ver”, completa. A explicação remete à dura realidade de quem veio da rua, de onde vieram as tantas mulheres do abrigo. “Eu quero contar minha história… E quero que outras pessoas aprendam com a minha história. O problema do HIV não é o fim, é um começo, é uma nova vida, tem que aprender a viver com a nova vida”, contou Vitória, outra moradora, mulher trans e que além de conviver com o HIV, tem uma deficiência motora.

A partir desses diálogos, foi estabelecida a confiança e o aval para a realização de registros audiovisuais feitos de perto pela documentarista Chris Tigra, narrando diferentes histórias durante o projeto. “Mãe, na Globo”, “Eu gosto de ser negra. Se os outros não gostam é problema deles…”. Essas e outras frases, inquietudes individuais e coletivas, deram forma ao projeto, cuja etapa seguinte consistiu em um editorial fotográfico feito com as moradoras, que viraram modelos de suas próprias produções. Seja na roupa, no bordado, na fotografia ou no vídeo, o que se buscou foi a promoção de diferentes narrativas dessas mulheres que, geralmente, têm suas trajetórias de vida associadas a um discurso hegemônico de dor e sofrimento. Tal discurso é comumente relatado em noticiários apenas como um problema social. 

Diante dessa realidade, como poderíamos proporcionar que os seus lugares de fala pudessem ser exercitados sob outras perspectivas? De acordo com a pensadora Djamila Ribeiro: “Ao promover uma multiplicidade de vozes o que se quer, acima de tudo, é quebrar com o discurso autorizado e único, que se pretende universal” (RIBEIRO, 2017, p. 70). Trata-se, portanto, de apresentar as narrativas relatadas a partir de experiências estéticas e compartilhadas entre as moradoras do Maria Maria. A intenção é promover atritos com os projetos globais, transpondo o universalismo abstrato da epistemologia moderna e valorizando diferentes matrizes sociais e de conhecimento. Na troca e nos afetos, o que o projeto alcança são formas de educação não formal. Este seria o projeto que Mignolo denomina de giro decolonial (LEDA, 2015).

As experiências estéticas vivenciadas pelas mulheres numa carga horária de 90 horas gerou um conhecimento de composição no qual elas escolhiam a modelagem e criavam os padrões de bordado e estamparia. Nos diálogos estabelecidos com o grupo e no documentário em vídeo, elas narravam suas histórias de vida. Dessas narrativas elas extraíam elementos de textos que também serviam como elemento estético para as roupas. Uma sessão de fotografia na qual as mulheres eram as modelos vestidas com as roupas documentou a criação de cada uma. No final, com esse material, uma exposição aconteceu entre os dias 13 e 22 de dezembro de 2018, na Galeria Passarela Cultural da Biblioteca Pública, em Belo Horizonte. Com os objetos dispostos em constelação, a proposta era que diferentes leituras e combinações pudessem ser feitas entre roupas, textos, fotografias e vídeo. No dia da abertura, um desfile de moda com as moradoras protagonista confirmou o teor plural do projeto, bem como suas diversas linguagens e expressões sociais e artísticas. O resultado alcançado reflete a proposta da curadora da exposição, Dulce Helena Couto Alves que, em suas pesquisas e investigações, pensa a educação como chave para romper as barreiras estruturais da desigualdade de nossa sociedade: “vislumbro que o caminho seja estimular uma pedagogia capaz de acolher o Outro, na manifestação do seu rosto, da sua história e da sua cultura, potencializando uma sociedade mais justa, mais solidária, mais ética e mais estética” (ALVES, 2017, p. 155).

Agora as Marias mostram, por meio das roupas e de suas narrativas, a força criativa que culmina em um espaço de fala. A roupa serve, portanto, de manto, sacralizando essas que simbolizam tantas Marias – obras vivas, cheias de graça e benditas entre todas as mulheres.

Referências Bibliográficas

ALVES, Dulce Helena Couto. Retratos de marias: arte, mediação e alteridade no abrigo Maria Maria da cidade de Belo Horizonte. 2017. 149f. Dissertação (Mestrado em Artes) – Programa de Pós-Graduação em Artes, Universidade Estadual de Minas Gerais, Belo Horizonte.

LEDA, Manuela Correa. Teorias pós-coloniais e decoloniais: para repensar a sociologia da modernidade. Temáticas, ano 23, n. 45/46, p. 101-126, fev./dez. 2015.

MIGNOLO, Walter. Histórias locais / projetos globais: colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? Letramento. Belo Horizonte, 2017.

Lista de Imagens

1   Matheus Couto, Chris Tigra, Ana Paula Oliveira, Quando Ana Paula Fala, 2018, técnica Mista, dimensões variadas. Fonte: imagem do autor.

2   Matheus Couto, Quando Ana Paula Fala, 2018, impressão digital sobre tecido, 100 x 60 cm. Fonte: imagem do autor.

3, 4 e 5   Matheus Couto, série “O desfile de Thábata”, 2018, impressão digital sob papel fotográfico, 29 x 42 cm cada. Fonte: imagem do autor.

6 e 7   Matheus Couto, série “O Possante de Vitória”, 2018, impressão digital sob papel fotográfico, 29 x 42 cm cada. Fonte: imagem do autor.

8   Matheus Couto, Bem me quer… bem me quero., 2018, impressão digital sob papel fotográfico, 29 x 42 cm. Fonte: imagem do autor.